O alto índice de desemprego, o agravamento da crise econômica e a pandemia contribuíram para aumentar a exploração dos trabalhadores brasileiros, que estão se submetendo a jornadas mais longas em empresas de plataformas digitais, ganhando pouco e com um chefe invisível – o celular, o algoritmo – com quem não dá para discutir direitos, nem melhores condições de trabalho e renda.

Um levantamento do Instituto Locomotiva mostrou que de fevereiro do ano passado até agora, aumentou em 11,4 milhões o número de pessoas que recorrem aos aplicativos para garantir parte ou a totalidade de sua renda. Com isso, subiu para 32,4 milhões (20% da população adulta do Brasil) o número de pessoas que utilizam algum tipo de aplicativo para trabalhar. Em fevereiro do ano passado, antes da pandemia, eram 13%.

Embora as plataformas digitais sejam vistas como forma de facilitar o intercâmbio entre o trabalho, o consumo e a produção, há uma relação perversa para com os trabalhadores e até mesmo com os pequenos negócios que vêm sendo “engolidos” pelas grandes empresas de e-commerce. Tudo isso impulsionado pelo sistema financeiro que está umbilicalmente ligado às plataformas, que incentivam e financiam lançamentos de startups que depois são compradas por esses mesmos fundos.

A análise é do engenheiro e professor do Instituto Federal Fluminense (IFF) , Roberto Moraes, que estuda desde 2016, essas mudanças nas relações de trabalho e na economia, que ele chama de “plataformismo”.

De acordo com o professor, a pandemia acelerou enormemente o número de trabalhadores no setor digital, de aplicativos e plataformas. O uso do celular foi um dos maiores impulsos a este tipo de serviço. O pedido de um táxi em que a pessoa teria de procurar um telefone público para chamar um motorista num ponto, hoje se faz pelo celular.

O engenheiro lembra que a internet começou a crescer na década de 1990, se expande extraordinariamente em 2000, e em 2010 vem a explosão de entrada de internet no celular e o uso de aplicativos, que nada mais é do que um software leve e de fácil utilização. A partir do Uber e dos compartilhamentos de carona, eles ganham espaço no mundo do trabalho.

Essa constatação é confirmada por outros dados da pesquisa do Instituto Locomotiva, mostrando que, dos 32,4 milhões de brasileiros que têm renda via aplicativos, 16% deles afirmaram que essa tem sido a única fonte de renda. Para outros 15% os aplicativos respondem por metade dos ganhos. Outros 24% usam os Apps apenas para um trabalho eventual, como dar um impulso às vendas de um negócio que existe fora do mundo virtual, por exemplo.

Mesmo a pesquisa não levantando a média de ganho de renda da população, pelo baixo número de pessoas que consegue sobreviver tendo como única fonte de renda os aplicativos, se percebe que eles não são suficientes para o sustento de um trabalhador, analisa o Secretário de Relações do Trabalho, da CUT Nacional, Ari Aloraldo do Nascimento.

“A pesquisa faz um bom diagnóstico, mas com aquele olhar da empregabilidade , como um grande setor que absorveu mão de obra, mas não discute a qualidade da ocupação. No entanto, ela reflete a questão social que o país enfrenta”, diz Ari.

O poder do chefe invisível

O professor do IFF chama a atenção para a qualificação dos trabalhadores desses aplicativos. O que treina os algoritmos e monta os aplicativos é o mais qualificado, por outro lado, a grande maioria é o trabalhador, que usa os aplicativos como ferramentas de trabalho, só que esse imenso contingente obedece a um chefe invisível. Ele não em acesso a uma pessoa de carne e osso, ele não tem com quem reclamar e justificar suas possíveis falhas e faltas.

“É uma mudança colossal, o chefe dele, o capataz, não é mais o seo João, é o celular, é o algoritmo e ele passa a ter relação meio lúdica, que não teria no chão da fábrica”, ressalta Moraes.

É por isso, segundo o engenheiro, que boa parte dos entregadores por aplicativo age como um gamer, um jogador. Ele precisa vencer etapas e ter pontos para conseguir mais chamadas e ganhar mais, e quando perde pontuação não tem a quem recorrer. É por meio do próprio aplicativo que ele questiona, e a resposta é padronizada. Motoristas de Uber relatam que não receberam por três, cinco corridas e na pressa de atender outra chamada não tiveram como anotá-las e ficam sem recorrer.

É um processo de dominação tecnológica, de escravização, de servidão, de super exploração, em que a pessoa pede pelo amor de Deus para trabalhar e ter condição de, no mínimo, sobreviver
– Roberto Moraes
“Hoje há um feudalismo digital, o senhor , o patrão, é dono da Big Tech, o Rappi, o Ifood e o servo é o trabalhador do aplicativo, que nem pode fugir para um quilombo”, critica o professor do IFF.

Plataformismo e o home office

Um ponto importante é que a pesquisa não se atem apenas ao uso de aplicativos por entregadores e motoristas, mas, inclui também ferramentas que indiretamente contribuem para que as empresas e profissionais se comuniquem ou captem novos clientes no mundo virtual.

Muitos desses profissionais atuam no sistema home office, transformado também por conta da pandemia.

“Quando se trabalha na empresa, você tem a hora do café, do almoço, da entrada no escritório e da saída. Em casa esses horários se perdem”, diz o professor.

Segundo o dirigente da CUT, basta fazer um levantamento sobre adoecimento físico e mental dos trabalhadores em home office para se chegar à conclusão que eles tomam menos sol do que presidiários.

“ Parece prisão domiciliar, mas a casa do trabalhador virou extensão da empresa e ele ainda tem de pagar com toda a estrutura , com os móveis que teve de comprar, o uso da água, da energia, do ar condicionado. Enfim, toda a estrutura e ferramentas do trabalho recaem sobre o trabalhador”, afirma Ari Aloraldo.

Já o professor da IFF, conta que presidente do Banco Santander disse que o home office está dando sinais claros dessa “porosidade” de trabalho. O setor bancário, segundo Moraes, já dava pistas que iria enxugar enormemente o setor porque não precisa de todas as agências físicas, mesmo em grandes cidades, com o uso do PIX , dos aplicativos para pagar contas, etc.

As fintechs (majoritariamente startups que trabalham para inovar e otimizar serviços do sistema financeiro) , segundo ele, são um grande mercado. O Pag Seguro do UOL representa ¾ do lucro da empresa do grupo da Folha de São Paulo. O Mercado Pago, do Mercado Livre teve um lucro, em um ano na América Latina, por meio deste tipo de pagamento, de US$ 50 bilhões e na venda de mercadoria direta e indireta, o shopping virtual, de US$ 20 bilhões.

“ Quem financia o que chamo de plataformismo é o setor financeiro ,que fecham seus setores de pesquisas e incentivam o surgimento de startups. Tudo isso se encaixa de uma etapa da reestruturação produtiva onde a dominação tecnológica reforça a hegemonia financeira do capitalismo. A consequência é mais a precarização, a vampirização da renda, num processo sem igual na história da humanidade”, diz o professor do IFF.

O secretário de Relações de Trabalho da CUT concorda que o uso de aplicativos praticamente escravizou o trabalhador que perde sua margem de lucro em casos de acidentes, como o que ocorrem com os entregadores que não tem nenhum seguro de saúde e ainda são os responsáveis pela manutenção de seus equipamentos.

“ Não se tem proteção social, é um bico que só vale quando seu carro funciona, e se seu celular é bom com um a boa conexão de internet”, critica o dirigente.

Vampiros do e-commerce

Para Moraes, as gigantes (Amazon, Apple, Facebook, Ali Baba,) do Vale do Silício (EUA) e as brasileiras como Magalu , PAG Seguro, entre outras, são verdadeiros vampiros que sugam a renda do trabalhador e interferem na economia dos pequenos negócios e até das cidades, e ainda transferem 20% dos seus lucros para suas matrizes, fora do Brasil.

“ Quando uma empresa deixa de pagar a Previdência de um trabalhador terceirizado, ela não ajuda a pagar o sistema de saúde e a educação gratuitos que este trabalhador e seus filhos utilizam. Ela sobrecarrega o serviço público, transformando a economia das cidades”, diz Moraes.

Outro dado importante que afeta a economia das cidades, segundo o professor, são os bancos de dados dos clientes, capturados da internet, que ajudam as grandes empresas a eliminar uma etapa importante, antes feita pela empresa empregadora de uma cidade.

De acordo com Moraes, o capitalismo de plataformas é movido por dois fatores fundamentais: a) enorme extração de valor do trabalho e de suas rendas no território, no lugar onde as pessoas vivem, na base da pirâmide social; b) a escala nacional global em que essas infraestruturas podem atuar descontruindo economias regionais de onde recolhem seus excedentes, eliminando parte do comércio e outros empregos e alterando as economias locais, no processo chamado de “glocal” – a glocalização é o resultado de um mercado cada vez mais conectado e digital.

“As gigantes do e-commerce eliminam etapas. O Mercado Livre, por exemplo, é o maior vendedor de peças de automóveis. Em muitas cidades, não se compra mais peças em uma loja física, se compra direito do Mercado Livre. A Ali Baba chega a enviar três aviões cargueiros, por semana, lotados de produtos da China ao Brasil”, afirma.

Moraes ressalta que mesmo que uma empresa crie seu próprio aplicativo, seja de uma cidade pequena ou grande, ela ainda precisa de uma loja da Apple para oferecer seu aplicativo. Por isso, as condições de competição não são iguais.

“Os aplicativos são intermediadores que extraem o valor do trabalho, e seu volume de vendas vão acabar com os pequenos negócios, mudando até o processo de urbanização as cidades. Com tanta precarização que tipo de trabalho vai sobrar?, questiona Moraes.

Outros dados da pesquisa

Ferramentas de transporte como Uber e 99, foram utilizadas por 28% daqueles que acessaram os aplicativos para obter trabalho ou renda. Já 26% desse contingente recorreram a tecnologias de vendas online, como Mercado Livre e Magazine Luiza, e 14% às de entrega, caso de Rappi, iFood e Uber Eats.

Entre as ferramentas mais utilizadas para quem lança mão da tecnologia para encontrar uma atividade, 34% dos entrevistados citaram os apps de redes sociais, como o Facebook, e 33%, os de mensagens, como o WhatsApp.

A pesquisa do Instituto Locomotiva ouviu entre os dias 12 e 19 de março, 1,5 mil pessoas de uma amostra selecionada por meio dos parâmetros da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que serve de parâmetro das características socioeconômicas do Brasil. O resultado foi publicado no jornal O Estado de São Paulo.

Escrito por: Rosely Rocha/CUT Brasil